Histórico do periódico

A REALIS - Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais -, é uma revista acadêmica eletrônica que se legitima em dois movimentos teóricos que ganharam importantes expressões nas Ciências Sociais, nos últimos trinta anos. Um deles é o Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais (M.A.U.S.S.) que tem como principal veículo de divulgação a Revue du MAUSS, editada na França, com conexões importantes em outros países europeus mas, também, na América, Asia e Africa, articulando o debate teórico desde a perspectiva Norte-Sul. A crítica antiutilitarista busca demonstrar ser uma ficção toda tentativa de reduzir a complexidade da modernidade a uma determinação econômica, sendo necessário que as ciências sociais se abram à compreensão da multideterminação causal e expressiva da prática humana, no interior da qual o fator econômico tem relevância, mas em articulação com outros fatores não-econômicos. No interior da crítica antiutilitarista há um realce particular para os estudos sobre a Dádiva que permitem valorizar o caráter plurimotivacional, simbólico e ritualístico da ação social e a circulação dos bens coletivos bem como denunciar os perigos das teses reducionistas com aquelas mercadológicas que embasam a doutrina neoliberal.

O outro movimento teórico é aquele simbolizado pelos Estudos Poscoloniais e Descoloniais que se afirmam nos rastros das resistências culturais dos povos não europeus e dos deslocamentos de olhares e de sentidos sobre a modernidade ocidental desde as perspectivas não européias. Tais estudos têm sido difundidos por autores latinoamericanos, indianos, africanos e europeus que viveram pessoalmente as experiências das colonialidades de saber e de poder ou então que foram influenciados pelas vivências com culturas não européias e que, por isso, se sensibilizam com a importância de se conceber a modernidade mediante a pluralidade social, política e cultural. Assim, a crítica ao modelo capitalista e colonialista hegemônico passa agora necessariamente por uma articulação crítica das correntes Norte-Sul e Sul-Sul. A associação das críticas antiutilitaristas, poscoloniais e descoloniais, demonstra sua oportunidade pela importância de se conjugar simultaneamente a crítica ao Capitalismo e ao Colonialismo, visto que ambos processos sistêmicos  se alimentam reciprocamente nos planos da teoria e da prática. Ou seja, a Economia de Mercado capitalista contribuiu para se valorizar a mercadoria como feitiço maior da modernidade e como moeda de troca intercultural; e o Mito do Eurocentrismo – e dentro dele os Mitos do Desenvolvimentismo e do Progresso Histórico - contribuiu para que o mercantilismo fosse valorizado não apenas como um sistema cultural e econômico próprio a certa experiência histórica particular, a européia, mas como um processo civilizacional e universal racionalmente superior a todas as culturas vivas do planeta.

Ainda é importante assinalar que o fato de esta iniciativa editorial estar sendo tomada em um país latinoamericano não é casual mas está ligado ao papel deste continente como palco de experiências e embates relevantes entre forças de conservação e de mudança. Por um lado, temos os defensores de modelos desenvolvimentistas de inspiração mercadológica e especulativa como o neoliberal e, por outro, aqueles intelectuais e militantes que entendem que as práticas mercantis são relevantes para as sociedades contemporâneas, mas que elas devem ser administradas a partir de uma regulação política e social mais ampla. Tal regulação deve integrar novos mecanismos de participação envolvendo os grupos subalternos nas tomadas de decisões sobre temas que interferem direto ou indiretamente nos destinos comuns de povos e grupos historicamente diferentes culturalmente diferenciados.

Para concluir, é necessário assinalar que este empreendimento não constitui uma iniciativa isolada, tendo uma relação necessária com o Jornal do Mauss Iberolatinoamericano, uma proposta editorial que já tem 3 anos de sucesso em termos de divulgação acadêmica virtual e presencial (www.jornaldomauss.org). Durante esse tempo, o Jornal do Mauss tem buscado difundir idéias e acontecimentos que expressam o debate antiutilitarista com destaque para a América Latina, enfatizando-se temas como democracia participativa, economia solidária e outras economias humanas, novas políticas públicas, humanização da saúde, práticas identitárias interculturais, sustentabilidade ecosocial entre outros. O Jornal do Mauss vem difundindo igualmente a produção acadêmica poscolonial e descolonial, contribuindo para ampliar o espectro da crítica teórica no interior das ciências sociais mundializadas. A criação da REALIS não é um fato isolado mas ganha sentido dentro de um debate acadêmico e crítico mais amplo que atravessa no momento os territórios geográficos nacionais abrindo-se para novos territórios de construções discursivas gerados pela realidade virtual, os quais ampliam os antigos espaços presenciais de divulgação editorial.



ISSN: 2179-7501